Em 10 de abril de 2011, escrevi aqui um texto curto intitulado apenas “Começando”. Naquela época, a internet brasileira ainda tentava entender o que era um profissional de mídias sociais, o Orkut começava a perder espaço, o Twitter era uma praça pública de ideias em tempo real e o Facebook parecia uma promessa democrática de alcance orgânico.
Poucas semanas depois, publiquei outro ensaio: “A Morte das Mídias Sociais”. Não era profecia apocalíptica, mas uma inquietação que sempre me acompanhou: o que acontece quando a conversa genuína e a utilidade prática são substituídas pela mercantilização desenfreada da atenção?
Quase quinze anos se passaram. Trabalhei em agências, gerenciei milhões em mídia de performance, me mudei para São Paulo, testei ferramentas que nasceram gigantes e desapareceram da noite para o dia, vi o algoritmo do Facebook fechar a torneira do orgânico, o nascimento das automações e a chegada da inteligência artificial generativa em escala industrial.
E, no meio de tudo isso, o blog ficou em silêncio.
Hoje, decidi que era hora de quebrar esse silêncio. E não é por nostalgia. É por necessidade de sobrevivência editorial.
O cansaço do terreno alugado
Em 2015, escrevi neste mesmo domínio um artigo chamado “Importância do e-mail e plataformas próprias”, onde defendia uma tese que o mercado adora esquecer nos momentos de euforia: construir toda a sua reputação, seu conteúdo e sua distribuição em plataformas de terceiros é como construir uma casa de luxo em terreno alugado.
Nos últimos anos, todos nós aceitamos as regras do senhorio:
- Reduzimos pensamentos complexos a carrosséis de dez telas projetados para gerar salvamentos artificiais.
- Trocamos análises técnicas aprofundadas por vídeos de trinta segundos que precisam disputar a atenção do usuário com dancinhas e memes em velocidade 2x.
- Vimos nossos canais de distribuição serem sequestrados por algoritmos que mudam as regras sem aviso prévio, forçando todo mundo a pagar para alcançar quem voluntariamente apertou um botão para nos seguir.
Pior que isso: a internet foi inundada por uma camada espessa de conteúdo sintético, pasteurizado e homogêneo. Todo mundo parece usar o mesmo prompt, falar com o mesmo tom motivacional de palco e prometer o mesmo “segredo que ninguém te conta”.
O resultado é um ruído ensurdecedor onde todo mundo fala, poucos escutam e quase nada se aprofunda.
O que este espaço volta a ser
Reabrir este blog é um ato deliberado de desaceleração técnica. É o compromisso de voltar a documentar a trincheira sem a obrigação de agradar ao algoritmo de recomendação do dia.
Para quem está chegando agora ou para quem me lê desde os tempos das listas de blogs e dos primeiros fóruns de Facebook Ads, estes são os princípios que vão reger este espaço daqui para a frente:
- Dados reais, não promessas de painel: Não espere encontrar aqui fórmulas mágicas para enriquecer no digital ou prints de faturamento sem contexto. Se falarmos de tráfego, falaremos de margem, atribuição real, qualidade de lead e custo de aquisição. Métrica de vaidade continua não pagando boleto de ninguém.
- Documentação de campo (com os erros incluídos): Os melhores artigos que escrevi foram aqueles em que mostrei os números de um teste prático, com hipóteses, metodologias e ressalvas transparentes (porque ninguém que realmente opera campanhas e produtos acerta 100% das vezes). Este blog continuará sendo um caderno de campo aberto.
- Engenharia e soberania digital: Falaremos muito sobre infraestrutura: mensuração do lado do servidor (Server-Side), governança de dados primários (First-Party Data), inteligência de automação, integrações via API e a transição inevitável de volta para a web independente.
- Sem filtro de relações públicas: Quando uma plataforma tomar uma decisão arbitrária ou vender gato por lebre para os anunciantes (como quando começaram a cobrar por visualizações de 3 segundos em auto-play mudo), continuaremos dissecando os números sem medo de apontar o óbvio.
Uma estética de respeito ao leitor
Você deve ter reparado que o design deste blog não tem popups pulando na sua cara, não tem banners piscando, não tem contadores regressivos de escassez e não usa truques visuais para prender a sua rolagem.
Ele foi reconstruído do zero para ser apenas texto, estrutura e pensamento limpo. Tipografia feita para ser lida sem cansar a vista, colunas calibradas para o foco e código enxuto que respeita a memória do seu dispositivo e o seu tempo.
Se você veio em busca de um atalho rápido de quinze segundos, este provavelmente não é o lugar certo. Mas se você gosta de puxar uma cadeira, analisar um problema técnico com profundidade e entender os porquês por trás dos resultados, seja muito bem-vindo de volta.
O diálogo continua
Este blog sempre foi uma via de mão dupla. Alguns dos melhores projetos, amizades e discussões profissionais da minha vida nasceram na caixa de comentários dos artigos antigos e nos grupos que criamos em torno deles.
A caixa de comentários continua aberta. E a pergunta que deixo para você neste reinício é simples:
Você também sente falta de uma internet com menos ruído de feed e mais substância em terrenos próprios? Como tem sido a sua relação com as plataformas atuais?
Vamos voltar a conversar. Com calma e nos nossos próprios termos.